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quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

COREN RJ x REDE GLOBO

Resposta do Coren sobre a polêmica da personagem Norma em "Insensato Coração"

03 Fevereiro 2011

Ilmos. Srs. Gilberto Braga/Ricardo Linhares/Denis Carvalho
DD. Autores e Diretor da Novela "Insensato Coração"


Considerando a apresentação dos capítulos iniciais da novela "Insensato Coração" e a atuação da dita "enfermeira", personagem chamada Norma, interpretada pela excelente atriz Glória Pires, passamos a tecer algumas considerações:

1 - As atividades domésticas desenvolvidas pela personagem Norma não são condizentes com as previstas para os ENFERMEIROS (profissional de nível superior com curso de graduação de pelo menos 4 anos), de acordo com a Lei no 7.498, de 25 de junho de 1986, que dispõe sobre a regulamentação do exercício da enfermagem;

2 – Na área de enfermagem três trabalhadores têm o seu exercício profissional previsto em Lei: o auxiliar de enfermagem (exigência de ensino fundamental completo + curso específico), o técnico de enfermagem (exigência de ensino médio completo + curso específico) e o enfermeiro (exigência de curso de graduação realizado de 4 a 5 anos– nível superior, podendo ainda cursar mestrado e doutorado na área ou em outras áreas do conhecimento);

3 – O exercício profissional do ENFERMEIRO no domicílio, em geral, é voltado para os pacientes de alto risco e dependência máxima do profissional, além do uso de tecnologia avançada.
Outrossim, nada impede que o Enfermeiro, o Técnico e o Auxiliar de enfermagem exerçam atividades junto a pessoas de menor risco de adoecimento. Contudo, suas ações são voltadas para a pessoa dependente de seus cuidados e não dos cuidados do domicílio, o que é uma deturpação da imagem da profissão;

4 – Em geral, o trabalho de CUIDADOR, acompanhante sem amparo legal para executar procedimentos exigidos por pessoas doentes, sua ação restringe-se à vigilância, à segurança, ao relacionamento amigável com a pessoa que é cuidada e com sua família. Tem importância na sociedade e, geralmente, presta assistência a idosos, mas não é enfermeiro, técnico ou auxiliar de enfermagem.

Entendemos que a sociedade, em geral, é mal informada sobre a profissão de enfermagem, o que a faz vulnerável no momento de exigir cuidados sem risco, pois, desavisada, usa pessoas até bem intencionadas, mas que não estão capacitadas para este ramo do trabalho.

O trabalhador de enfermagem que luta há anos por melhores condições de trabalho, por carga horária de 30 horas semanais e salário compatível com o alto grau de responsabilidade que lhe é exigido para ajudar a salvar vidas, sente-se lesado com a imagem deturpada de seu trabalho, que pode inclusive enfraquecer a sua luta.

Como a Rede Globo tem a maior penetração televisiva nos lares brasileiros, ficamos preocupados com o uso indevido do vocábulo Enfermeiro em uma novela de grande audiência. Uma produção que, além de distrair, também tem o caráter informativo e de educação da sociedade através dos vários temas/texto que ela produz.

Temos certeza que como conhecedores, agora, do que as imagens levadas ao ar podem induzir a sociedade a entendimentos equivocados, além de deixar os profissionais de enfermagem bastante constrangidos socialmente, deverão tomar providências cabíveis para a correção dos fatos relatados.

Sempre certos de que os pensadores da Rede Globo primam pela verdade e a informação correta para a população deste país, colocamo-nos à disposição para qualquer outro esclarecimento.

Atenciosamente,

Pedro de Jesus Silva - Presidente do Conselho Regional de Enfermagem do Rio de Janeiro

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

BIG BROTHER BRASIL

Luiz Fernando Veríssimo

Que me perdoem os ávidos telespectadores do Big Brother Brasil (BBB), produzido e organizado pela nossa distinta Rede Globo, mas conseguimos chegar ao fundo do poço... A décima primeira (está indo longe!) edição do BBB é uma síntese do que há de pior na TV brasileira. Chega a ser difícil encontrar as palavras adequadas para qualificar tamanho atentado à nossa modesta inteligência.

Dizem que em Roma, um dos maiores impérios que o mundo conheceu, teve seu fim marcado pela depravação dos valores morais do seu povo, principalmente pela banalização do sexo. O BBB é a pura e suprema banalização do sexo. Impossível assistir, ver este programa ao lado dos filhos. Gays, lésbicas, heteros... todos, na mesma casa, a casa dos “heróis”, como são chamados por Pedro Bial. Não tenho nada contra gays, acho que cada um faz da vida o que quer, mas sou contra safadeza ao vivo na TV, seja entre homossexuais ou heterossexuais. O BBB é a realidade em busca do IBOPE...

Veja como Pedro Bial tratou os participantes do BBB. Ele prometeu um “zoológico humano divertido”. Não sei se será divertido, mas parece bem variado na sua mistura de clichês e figuras típicas.

Pergunto-me, por exemplo, como um jornalista, documentarista e escritor como Pedro Bial que, faça-se justiça, cobriu a Queda do Muro de Berlim, se submete a ser apresentador de um programa desse nível. Em um e-mail que recebi há pouco tempo, Bial escreve maravilhosamente bem sobre a perda do humorista Bussunda referindo-se à pena de se morrer tão cedo.

Eu gostaria de perguntar, se ele não pensa que esse programa é a morte da cultura, de valores e princípios, da moral, da ética e da dignidade.

Outro dia, durante o intervalo de uma programação da Globo, um outro repórter acéfalo do BBB disse que, para ganhar o prêmio de um milhão e meio de reais, um Big Brother tem um caminho árduo pela frente, chamando-os de heróis. Caminho árduo? Heróis?

São esses nossos exemplos de heróis?

Caminho árduo para mim é aquele percorrido por milhões de brasileiros: profissionais da saúde, professores da rede pública (aliás, todos os professores), carteiros, lixeiros e tantos outros trabalhadores incansáveis que, diariamente, passam horas exercendo suas funções com dedicação, competência e amor, quase sempre mal remunerados...

Heróis, são milhares de brasileiros que sequer têm um prato de comida por dia e um colchão decente para dormir e conseguem sobreviver a isso, todo santo dia.

Heróis, são crianças e adultos que lutam contra doenças complicadíssimas porque não tiveram chance de ter uma vida mais saudável e digna.

Heróis, são aqueles que, apesar de ganharem um salário mínimo, pagam suas contas, restando apenas dezesseis reais para alimentação, como mostrado em outra reportagem apresentada, meses atrás pela própria Rede Globo.

O Big Brother Brasil não é um programa cultural, nem educativo, não acrescenta informações e conhecimentos intelectuais aos telespectadores, nem aos participantes, e não há qualquer outro estímulo como, por exemplo, o incentivo ao esporte, à música, à criatividade ou ao ensino de conceitos como valor, ética, trabalho e moral.

E ai vem algum psicólogo de vanguarda e me diz que o BBB ajuda a "entender o comportamento humano". Ah, tenha dó!!!

Veja o que está por de tra$$$$$$$$$$$$$$$$ do BBB: José Neumani da Rádio Jovem Pan, fez um cálculo de que se vinte e nove milhões de pessoas ligarem a cada paredão, com o custo da ligação a trinta centavos, a Rede Globo e a Telefônica arrecadam oito milhões e setecentos mil reais. Eu vou repetir: oito milhões e setecentos mil reais a cada paredão.

Já imaginaram quanto poderia ser feito com essa quantia se fosse dedicada a programas de inclusão social: moradia, alimentação, ensino e saúde de muitos brasileiros?

(Poderiam ser feitas mais de 520 casas populares; ou comprar mais de 5.000 computadores!)

Essas palavras não são de revolta ou protesto, mas de vergonha e indignação, por ver tamanha aberração ter milhões de telespectadores.

Em vez de assistir ao BBB, que tal ler um livro, um poema de Mário Quintana ou de Neruda ou qualquer outra coisa..., ir ao cinema..., estudar... , ouvir boa música..., cuidar das flores e jardins... , telefonar para um amigo... , visitar os avós.. , pescar..., brincar com as crianças... , namorar... ou simplesmente dormir.

Assistir ao BBB é ajudar a Globo a ganhar rios de dinheiro e destruir o que ainda resta dos valores sobre os quais foi construída nossa sociedade.